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Como vestir um sári em sete lições adormecidas

Extraído de "O Cérebro nosso de cada dia"

Autoria de Suzana Herculano-Houzel

"Eu nunca tinha vestido um sári. Estava na Índia fazia duas semanas, visitando a família do meu noivo, e todas as manhãs acompanhava, admirada, os movimentos precisos e delicados da minha futura sogra enquanto ela se enrolava em metros e mais metros de seda colorida. O tecido formava uma saia longa que, graças a dobras estrategicamente posicionadas, permitia o movimento livre das pernas, depois se transformava num belo drapeado que cobria os seios, e por fim sua extremidade repousava displicentemente sobre o ombro esquerdo, enfeitando as costas.


Eu também queria usar um. Achava lindo, e queria me vestir como as indianas, não como turista – ainda mais porque na rua, ao lado do meu futuro marido, eu passava facilmente por uma natural do norte do país. O tecido nós já havíamos encontrado, em uma loja de sonhos onde sáris para todos os gostos e orçamentos se empilhavam nas prateleiras. Mas faltava encontrar o costureiro que fizesse um choli sob medida, a mini-blusa milimetricamente ajustada ao busto e aos braços, feita sempre do mesmo tecido do sári. Os dias se passavam, e ainda nada de costureiro.


Foi então que comecei a sonhar que eu vestia um sári. Toda noite, durante uma semana, em sonhos eu colocava meu sári, passo a passo, exatamente como vira minha sogra fazer. Da direita para a esquerda, começando pela frente, eu sonhava que ia me enrolando, preparando as dobras nos lugares certos com trejeitos copiados da Surya, até terminar com o comprimento exato de tecido pousado sobre o ombro esquerdo.


Quando por fim pude vestir meu sári, surpresa: foi como se houvesse feito aquilo todos os dias da minha vida. Meu noivo ficou impressionado. A saia caía por igual até um centímetro do chão, sem pontas arrastadas ou curtas demais; as dobras estavam nos lugares certos, sem engruvinhar nos quadris; a ponta sobre o ombro começava certinho na marca do bordado. Mesmo sem “prática” no mundo real, eu já aprendera o procedimento: meu cérebro havia treinado em sonhos.


É isso o que a neurociência hoje comprova: o sono, incluindo o período de sonhos, é para o cérebro um período de aprendizado intensivo, e não exatamente de descanso. O caminho até a comprovação foi longo, mas não por falta de idéias sobre a importância do sono. Alguns cientistas acreditavam, e continuam acreditando, que o sono serve para reforçar circuitos que cuidam dos comportamentos mais básicos e inatos dos animais, como andar e caçar. Outros supõem que ele deve servir para apagar memórias desnecessárias, “fazendo espaço” no cérebro para que ele aprenda coisas novas no dia seguinte. Outros, ao contrário, acham que o sono é necessário para que o aprendizado se cristalize na forma de modificações permanentes no cérebro. Para esses, o sono seria a oportunidade de o cérebro “fechar para balanço”, rever os acontecimentos importantes dos últimos dias, reforçar esses registros, e passar a limpo anotações recentes – exatamente como estudantes fazem com seus rascunhos.


É esta a idéia que vem ganhando força nos últimos dez anos, a partir da descoberta de que é necessária uma noite de sono – e com sonhos, mesmo que eles não sejam lembrados – para o cérebro consolidar o que foi aprendido durante o dia. Sem sono, nada feito: qualquer esforço diurno de aprenzidado é desperdiçado. Os efeitos benéficos do sono para o aprendizado provavelmente vêm da alternância de ciclos de sono com e sem sonhos ao longo da noite. Talvez o sono sem sonhos sirva como um “restaurador” do funcionamento do cérebro exaurido ao longo do dia, e pré-requisito para que na fase seguinte, com sonhos, ocorram as modificações necessárias nas conexões entre os neurônios – as sinapses – para que o aprendizado se instale de modo permanente.


O sono, completo com sonhos, parece ser tão eficaz como período de passar a limpo anotações temporárias feitas pelo cérebro que um ciclo completo de pouco mais de uma hora já traz benefícios ao aprendizado do dorminhoco. Sonecas diurnas, tantas vezes consideradas sinal de preguiça, hoje são uma maneira cientificamente comprovada, e quase tão boa quanto uma noite inteira de sono, de ajudar o cérebro a aprender – desde que elas sejam longas o suficiente para incluir uns bons 20 minutos de sonhos.


Mais do que simplesmente passar a limpo o que começou a ser aprendido durante o dia, no entanto, os sonhos são um grande tubo de ensaios para a mente. Hoje já se sabe que a imaginação recruta as mesmas regiões do cérebro ativadas por sensações “verdadeiras”, vindas de fora. E o mesmo acontece durante os sonhos. Portanto, o que se vê e se sente durante os sonhos, incluindo emoções, são para o cérebro tão reais quanto tudo o que vem de fora quando se está acordado – e com um bônus adicional: sonhando, vale tudo. Primeiro, porque os sonhos são absolutamente privados; e segundo, porque o cérebro tem um mecanismo que bloqueia praticamente todos os movimentos do corpo durante os sonhos, o que garante por exemplo que ninguém vai revelar segredos ditos em sonhos, nem sair chutando o parceiro na cama se sonhar com um ladrão. Por isso, em sonhos é possível ensaiar reações a boas e más notícias, se acostumar com a idéia de uma prova temida, treinar um concerto de piano ou um pedido de casamento ou se abandonar a fantasias sexuais as mais ousadas, sem sofrer conseqüências… e até praticar como enrolar um sári ao redor do corpo. Enquanto isso o cérebro, aparentemente desligado e descansando, anota tudo furiosamente; ao despertar, depois de tanto treino, os dedos encontram habilmente sua posição na seda.


E como desenrolar um sári após o uso? Ah, fácil. Isso qualquer namorado, noivo ou marido descobre rapidinho. Nem é preciso sonhar para aprender…"

Um comentário:

  1. parabens a tudo e todos sou de catigua sp

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